Por Rodrigo Bischoff Belli (Militante do PCB e da Unidade Classista e Responsável pelo projeto de formação intelectual “Às armas da crítica”)

A Universidade Estadual de Maringá vivencia nos últimos dias uma polêmica: o fim das atividades promovidas pelo Ensino Remoto Emergencial (ERE) em meio a mais um aumento nos casos de contaminação de Covid-19. Ao olharmos para a instituição, o debate parece ter um contorno de novidade. Mas se nos afastarmos um pouco, conseguimos perceber que ele é uma reprise daquilo que acontece em outros lugares do Brasil, e que já aconteceu dentro de nossa própria cidade, nas discussões sobre o retorno das atividades didáticas das instituições municipais e particulares.
No dia 05 de maio de 2021, foi realizada em Maringá uma audiência pública para debater o retorno às aulas presenciais tanto na rede municipal quanto na rede particular de ensino. Passados poucos meses da mais recente onda de contágios pela Covid-19, havia grande pressão por parte de grupos de pais e proprietários de escolas para o retorno das crianças ao ambiente escolar. Embora não tivéssemos ainda perspectivas otimistas sobre o avanço da campanha de vacinação e, consequentemente, um cenário favorável ao retorno das atividades sem riscos de sobrecarga do sistema público de saúde, os grupos acima citados, especialmente seu principal porta-voz, o vice-presidente do SINEPE/NOPR, argumentavam que o cenário pandêmico deveria ser encarado como um “novo normal”.
Esse debate foi extremamente polêmico porque ele mexia com angústias.
A angústia pelo reconhecimento de que o ensino remoto, ao contrário do que pregavam os seus defensores, não promoveu um processo educativo melhor do que aquele realizado pelo presencial. A angústia causada pela sobrecarga de trabalho e conteúdo que atinge toda a comunidade escolar. A angústia de perder, junto ao ambiente escolar, o mínimo de assistência pública para suas vidas.
O retorno às aulas, com a promessa de retorno à normalidade, parece ser a resposta mais consequente pra acabar com essa angústia. Mas parecer ser é diferente de ser…
O caráter ilusório desse posicionamento e seus desdobramentos no debate se devem aos pressupostos da discussão. Não se questiona o tratamento dado pela administração pública – nas esferas federal, estadual e municipal – à contenção da pandemia. A falta de um efetivo isolamento, a sabotagem nas formas de testagem e verificação da propagação viral, a falta de políticas de assistência social para mitigar o impacto econômico destrutivo causado pela crise que antecedeu à pandemia trouxeram para nosso povo a sensação de que o caos pandêmico seria natural.
“Todos morrerão um dia, faz parte da vida”.
“Vale mais arriscar morrer pelo vírus do que morrer de fome”.
“Nossa juventude sofre os mais diversos abusos no ambiente doméstico, e apesar dos pesares, estará amparada no ambiente escolar”.
O que vemos em nosso cotidiano é a naturalização da propagação do vírus em virtude de que a vida precisa continuar rumo a um futuro promissor. E já que os jovens são o futuro… nada mais demagógico!
Tanto a administração pública – com sua política de tratar qualquer investimento enquanto gasto a ser justificado num orçamento cada vez mais controlado pelos interesses privados –, quanto os proprietários das instituições de ensino entendiam, e ainda entendem, os espaços educacionais não como um espaço ótimo de desenvolvimento humano, mas como um espaço de formação e reprodução da força de trabalho através do treinamento apostilado e da terceirização dos trabalhos de cuidado.
Ou seja, o que interessa, predominantemente é atender os interesses particulares do mercado, e não da formação intelectual e social saudável de nossa juventude. O “novo normal” pode ser traduzido como o aparelhamento político da pandemia em favor daqueles dispostos ao acúmulo de capitais.
Além disso, a situação exigia esforços para repensar o ano letivo, em diálogo com os profissionais da educação e familiares, reduzindo o conteúdo aplicado nas formas remotas e investindo num plano em médio prazo de readequação da estrutura curricular escolar no período pós-pandêmico.
Nada disso aconteceu. Apesar de não ser imediato, o retorno às atividades presenciais antes de um controle adequado da pandemia se fez. É certo que o avanço nas campanhas de imunização restringiram consideravelmente o avanço da doença, mas não a eliminaram. Mesmo com seus efeitos abrandados, a Covid-19 ainda representa o perigo do colapso do sistema de saúde e a possibilidade de surgimento de novas variantes com consequências difíceis de prever.
É neste “novo” velho cenário que as discussões na UEM acontecem.
No dia 20 de janeiro de 2022, foi realizada na UEM uma entrevista coletiva em que a reitoria se posicionaria sobre a suspensão do retorno às aulas presenciais da universidade. Em meio a uma nova onda de casos de Covid-19, há grande pressão por parte de discentes, organizados politicamente ou não, para o retorno das atividades. Embora estejamos em níveis razoáveis de imunização, a expectativa da sobrecarga do sistema público de saúde existe. Ou seja, o “novo normal” busca hegemonizar as discussões na UEM.
Tal como antes, esse debate é polêmico porque ele mexe com angústias.
A angústia pelo reconhecimento de que o ensino remoto, ao contrário do que pregavam os seus defensores, não promoveu um processo educativo melhor do que aquele realizado pelo presencial. A angústia causada pela sobrecarga de trabalho e conteúdo que atinge toda a comunidade acadêmica. A angústia de perder tempo na sua formação, especialmente quando se compara sua situação com a dos discentes das instituições privadas.
O retorno às aulas, com a promessa de retorno à normalidade, parece ser a resposta mais consequente pra acabar com essa angústia. Mais ainda quando ela se veste com um discurso de defesa da universidade contra sua precarização. Mas, novamente, parecer ser é diferente de ser…
O caráter ilusório desse posicionamento e seus desdobramentos no debate se devem mais uma vez aos pressupostos da discussão.
“Ninguém mais morre por Covid”.
“Vale mais arriscar contrair o vírus e ficar doente por pouco tempo do que passar pelo ERE”.
“A sociedade com eventos para até 1000 pessoas pode, a universidade para educar, não”.
Novamente, o que vemos em nosso cotidiano é a naturalização da propagação do vírus em virtude de que a vida precisa continuar rumo a um futuro promissor. E já que os jovens são o futuro… nada mais demagógico!
Tanto a administração pública – com sua política de tratar qualquer investimento enquanto gasto a ser justificado num orçamento cada vez mais controlado pelos interesses privados –, quanto a reitoria entendem os espaços educacionais não como um espaço ótimo de desenvolvimento humano, mas como um espaço de formação e reprodução da força de trabalho através do treinamento formal e da terceirização dos trabalhos de cuidado. Por isso mantêm o ERE, por isso não encaminham consequentemente as políticas de permanência e assistência estudantil pleiteadas pelos discentes, por isso repõem o corpo docente a partir de contratos temporários, pelos quais se trabalha mais ganhando menos.
Ou seja, o que interessa, predominantemente é atender os interesses particulares do mercado, reduzindo os custos da produção dessa mercadoria especializada, diminuindo seu valor.
A situação exige, tal como no início da pandemia, esforços para repensar o ano letivo, investindo num plano em médio prazo de readequação da estrutura curricular escolar no período pós-pandêmico.
Mais uma vez, nada disso aconteceu. O retorno às atividades presenciais antes de um controle adequado da pandemia é iminente.
Não é possível adotar o discurso de que as perdas na área da educação foram irreparáveis! Irreparáveis foram as vidas perdidas por essa política genocida!
Em termos práticos, a abordagem responsável do problema deveria se dedicar a dizer como e quando é possível reabrir as escolas com segurança, sem colocar em risco a vida de profissionais da educação, estudantes e seus familiares.
Para que a UEM possa retomar o atendimento presencial adequadamente é imprescindível diminuir o contágio, com a consequente redução de internações. Ou seja, nesse momento o esforço deve ser orientado a controlar a pandemia.
Qualquer outra medida demonstra o aparelhamento da pandemia de Covid-19 para a satisfação dos interesses privados na cidade. Não à toa, uma parcela dos discentes organizados procurou ajuda ao grande instrumento político da burguesia maringaense, a ACIM, para ecoar no meio acadêmico o discurso do “novo normal” apregoado pelos seus membros desde, pelo menos, aquela fatídica audiência pública de 2021.
É preciso ter em mente um ditado: de boas intenções estão pavimentados os caminhos ao inferno. Não basta se pronunciar contra a precarização ou contra a barbárie: é preciso participar ativamente da elaboração da estratégia e das táticas necessárias ao campo da política para fazer valer efetivamente os interesses em jogo. Sem isso, o que resta é a demagogia que uma postura que se fantasia com as bandeiras mais importantes para alcançar os interesses mais mesquinhos.

