40 anos da primeira eleição para reitoria na UEM

Um pouco da história para memorar o passado e animar as lutas do presente

Autor: Thiago F. Ferraiol

Encabeçando a chapa estava o professor Fernando Pontes de Sousa, um cearense comunista formado nas lutas da classe trabalhadora. Fernando foi preso pela ditadura empresarial-militar no Ceará enquanto participava de manifestações estudantis e atuou no movimento estudantil durante sua formação universitária em São Paulo, na década de 1970. Chegando à UEM em 1982, encontrou na cidade um crescente movimento docente, que havia fundado a ADUEM e participava ativamente das lutas nacionais pela democratização do país e, em particular, da universidade.

Foto: reprodução/acervo pessoal

Entre 1983 e 1985, Fernando foi presidente da ADUEM, com a professora Sandra Ferrari como vice-presidente, época em que a entidade exercia um papel fundamental nos debates políticos, inclusive com certa função sindical, participando da fundação do ANDES, sindicato nacional dos docentes, e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), promovendo debates políticos e, de fato, organizando o movimento docente contra a forma burocrática e antidemocrática típica das instituições durante a ditadura empresarial-militar. A indignação estudantil se somava a esse movimento. Em agosto de 1984, o DCE promoveu a ocupação da Reitoria, colocando a universidade de ponta-cabeça, como diz Reginaldo Dias em seu livro. O próprio Fernando, como forma de protesto contra os ataques do Estado aos servidores e a falta de reposição salarial, chegou a fazer uma greve de fome entre 26 de setembro e 2 de outubro de 1984, encerrada diante da retomada das negociações com o governo.

Foto: reprodução/acervo pessoal

Todo esse processo de lutas é que deu força para a construção do MUDE (Movimento por uma Universidade Democrática), reunindo estudantes, técnicos e docentes e pautando, entre outras coisas, a eleição direta para a Reitoria, a gratuidade do ensino, a autonomia e a expansão da universidade. A chapa construída pelo MUDE, com os professores Fernando Pontes de Sousa e Jacó Gimenes, sustentada nessas lutas e nesses eixos programáticos, foi vitoriosa na primeira eleição para a Reitoria, em 27 de agosto de 1986.

A primeira e decisiva questão durante sua gestão foi a conquista da gratuidade do ensino, promulgada pelo CAD em 6 de março de 1987, poucos meses após Fernando assumir a Reitoria. A gestão teve outros avanços importantes, expandindo a universidade com a criação dos cursos de Ciência da Computação, Medicina e Odontologia. Antecederam os dois últimos, inclusive, a criação do complexo de saúde, com hospital, clínica odontológica, unidade de psicologia aplicada e hemocentro. A universidade teve ainda a consolidação do seu primeiro campus regional, em Cianorte, com os cursos de Pedagogia e Ciências Contábeis, criados em 1986. O movimento também avançou no debate sobre a própria estrutura da universidade, reformou seu estatuto, pautou a questão da autonomia e do tripé ensino, pesquisa e extensão (debate que vinha de longa data e que ficou consagrado no artigo 207 da Constituição de 1988).

Esse movimento também deu força para promover uma grande virada na forma da UEM, que permaneceu mesmo após o fim da gestão. De fato, mesmo diante do avanço neoliberal que toma corpo nos anos 1990, a UEM conseguiu avançar na sua consolidação enquanto autarquia, e não mais como uma fundação privada. Na prática, promoveu a formação acadêmica de seus servidores técnicos e docentes, permitindo que se afastassem para outras universidades, recebendo seus salários da UEM, para desenvolver pesquisas de mestrado e doutorado. Essa política foi fundamental para a criação e consolidação dos cursos de pós-graduação. A universidade deixava definitivamente para trás seus aspectos de faculdades isoladas, servindo apenas à formação de interesse das elites locais, e começava a se tornar, de fato, uma universidade com ensino, pesquisa e extensão, pública, gratuita e autônoma.

É importante reforçar que os debates colocados naquele período, embora desembocassem em legislações, como a própria Constituição Federal, a gratuidade do ensino, a criação de cursos e a transformação da universidade em autarquia, não vieram essencialmente da burocracia universitária. Foi necessário um amplo movimento de base, que rompeu com a lógica corporativista e ousou pautar uma universidade democrática, popular e que se alinhasse a uma nova perspectiva de país.

Os problemas que enfrentamos hoje, apesar de serem dramáticos (como a degradação da estrutura da universidade, a falta de efetivas políticas de permanência estudantil, as terceirizações e o rebaixamento salarial), só podem ser por nós reconhecidos como tal porque sabemos que houve, em algum momento da história, um movimento que ousou pautar e construir uma nova universidade.

O definhamento desse movimento, no entanto, não pode ser visto como o fim da história. É verdade que sofremos um descenso, que a burocracia e o corporativismo novamente tomaram conta da estrutura universitária, que os servidores estão sofrendo com a precarização e adoecidos, que o movimento estudantil ainda encontra dificuldades de organização e que a lógica neoliberal se enraizou e dificulta a organização.

Não é demais lembrar que houve momentos igualmente dramáticos, ou até piores, na história, como o próprio período da ditadura empresarial-militar, quando a militância era literalmente apagada, perseguida, assassinada e expulsa. Mas, mesmo na adversidade, houve pessoas como Nadir Cancian, José Tarcísio Trindade, Fernando Pontes, Sandra Ferrari, entre muitos outros valiosos camaradas, que ousaram construir a luta sustentada em princípios humanos, orientados sempre pela perspectiva anticapitalista e pela construção de uma sociedade livre da exploração do ser humano. Esses princípios se traduziam e se ligavam às lutas concretas do cotidiano, algo que nossa geração tem o dever de recuperar pelo bem da universidade e da humanidade!

Viva os 40 anos da primeira eleição para a Reitoria da UEM!
Viva a luta pela democracia e pela autonomia universitária na UEM!
Viva a luta por uma UEM pública, gratuita e popular!

Referências

[1] DIAS, Reginaldo Benedito. Uma universidade de ponta-cabeça: a ocupação da reitoria e a luta dos estudantes da UEM pela gratuidade do ensino e pela democratização da universidade. Maringá: EDUEM, 2008.
[2] DIAS, Reginaldo Benedito; GOMES, Dirceu Herrero. ADUEM Memorial 40 anos: 1978-2018. Maringá: 2018.
[3] SOUSA, Fernando Pontes de. Depoimento para os 104 anos do PCB em Maringá. YouTube, 2026. [https://youtu.be/4n12AuHhr1A]

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